A METAMORFOSE DO ATOR NA CRIAÇÃO DRAG
DOI:
https://doi.org/10.21680/2595-4024.2025v8n1ID42262Resumo
A arte drag é uma prática que ultrapassa a simples performance teatral, servindo como um espaço para discutir o gênero como uma construção social e não-natural, um conceito já abordado por Judith Butler. Um experimento poético desenvolvido no Laboratório de Teatro Experimental e Pesquisa (LaTEP/UFRN) buscou criar uma cena por meio de um processo de metamorfose. Inspiradas na estética drag, três figuras foram esboçadas. A terceira figura foi escolhida por romper com a lógica convencional. Essa persona foi materializada em um casulo sintético, um traje feito de tiras de sacos de lixo pretos, papelão e fita adesiva, criando uma segunda pele que visava silenciar qualquer familiaridade. A maquiagem densa cobriu o rosto de tinta branca, apagando contornos e traços familiares, e desenhou novos contornos labiais disformes. O objetivo dessa criação era romper deliberadamente com os padrões de hiper feminilidade que existem no próprio meio drag, explorando o estranhamento do espectador e subvertendo uma arte já subversiva, além de trazer materialmente a plasticidade do gênero. A cena, com cerca de 40 minutos, consistia em um ritual de metamorfose. O primeiro ato era a maquiagem, transformando o rosto em uma tela em branco. No segundo momento, uma "dança com o desconforto," envolvia a fixação de peças rígidas e inelásticas de plástico, que, ao se atritarem, compunham a trilha sonora. O traje, propositalmente justo, aprisionava o corpo, limitando os movimentos a cada nova camada fixada. Ao final dessa transformação lenta, uma criatura drag onírica se erguia, envolta em rigidez e desequilíbrio, inerte diante do público, como um fantasma ou um monumento de plástico. Em termos ético-políticos, é crucial reconhecer que a performance drag pode trazer debates sobre gênero, mas corre o risco paradoxal de reforçar normas heterossexuais se não tiver um caráter de denúncia. Surge a questão sobre apropriação versus celebração quando artistas drag que são homens cisgêneros interpretam o feminino sem considerar as oposições reais (machismo, transfobia) vivenciadas por mulheres cisgênero, mulheres trans e travestis. É fundamental que a performance evite estereotipar ou reduzir a complexidade da feminilidade. A arte drag, conforme essa abordagem, é um espaço complexo de experimentação e militância que visa provocar questionamentos e a contínua transformação do ser e das estruturas sociais.
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