CHAMADA PARA SUBMISSÃO DE ARTIGOS PARA O DOSSIÊ "PATRIMÔNIOS ALIMENTARES: PROCESSOS, TERRITORIALIDADES E NOVOS MERCADOS" "

29-07-2020

                   PATRIMÔNIOS ALIMENTARES - PROCESSOS, TERRITORIALIDADES E NOVOS MERCADOS

 

                                                                                                                                                               Julie A Cavignac – UFRN

 

                                                                                                                                                  Joana Lucas - CRIA/NOVA FCSH

 

                                                                                                                                                      Paula Balduino de Melo - IFB

 

É a partir de 2003, com a criação da Convenção da UNESCO para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, que os sistemas alimentares e culinários, os conhecimentos, os processos de produção e as técnicas associados à alimentação são objeto de ações e de políticas de preservação. Se há relativamente poucas preparações alimentares e cozinhas regionais classificadas pelos órgãos competentes a nível internacional, há muitos pratos considerados como patrimônios pelos seus detentores, em particular entre os Povos e Comunidades Tradicionais, nos espaços rurais onde as comidas festivas ou regionais se tornam emblemas culturais (por exemplo as comidas de milho, sinônimos de São João no Nordeste ou as sardinhas assadas, em Lisboa). Porém, as ações de patrimonialização nem sempre contextualizam  as situações econômicas e sociais difíceis que correspondem ao consumo dos alimentos e muitas vezes falta uma análise dos contextos sociais e históricos em que foram criados e consumidos. Por outro lado, a urbanização das sociedades contemporâneas, a main-mise da agroindústria na comercialização de alimentos, as crises, os perigos e os escândalos sanitários e ecológicos têm como resposta a mobilização de consumidores conscientes que militam para uma alimentação sustentável, saudável e a preço justo; preocupação geralmente associada a um apelo saudosista para comidas "autênticas" produzidas num território agrícola  cada vez  mais afastado dos consumidores e que é idealizado. Concomitantemente, agricultores se organizam em coletivos e cooperativas para evitar intermediários e criar circuitos comerciais curtos. Criou-se assim um mercado para uma alimentação mais "natural", com a venda direta de produtos agroecológicos que são também alimentos-patrimônios. Constata-se então uma certa banalização da ideia de patrimônio alimentar, com a mercantilização dos produtos de terroir, em particular nas zonas turísticas, provocando uma gourmetização desses alimentos e uma recuperação dos marcadores da cultura alimentar “tradicional” ou “popular” pelas elites locais (cf. POULAIN, Jean-Pierre. Sociologias da alimentação, 2002).

Queremos avaliar memórias, conhecimentos, práticas, processos e discutir, de forma comparativa e crítica, os embates e as consequências da patrimonialização dos sistemas alimentares e das criações culinárias, em particular as das populações vulneráveis e das classes trabalhadoras. Aproveitaremos esta oportunidade para abrir o debate sobre o aprimoramento de produtos locais ou "típicos" que muitas vezes se referem a uma realidade do passado da qual as gerações anteriores tiveram que se distanciar: em um mundo cada vez mais urbanizado e onde os sistemas de produção tradicionais são ameaçados por poderosas indústrias de alimentos, quem ganha com a patrimonialização? Quais são os embates das políticas culturais e das ações de patrimonialização de preparações culinárias? Finalmente, discutiremos os processos culinários fora das agências oficiais e associados a estratégias de sobrevivência; questionaremos, no final, se o patrimônio contribui para produzir e reforçar desigualdades.

Assim, gostaríamos de receber contribuições de caráter antropológico, ensaios etnográficos que analisem patrimônios alimentares; territorialidades locais, interações socioecológicas e sistemas alimentares; dinâmicas de transformação das culturas alimentares e processos culinários; novos mercados e circuitos de comercialização de alimentos-patrimônios; a alimentação como marcador de diferenças sociais e culturais, dentre outras temáticas relacionadas. 

As/os autores/as devem submeter seus textos, seguindo normas do periódico, por meio do portal https://periodicos.ufrn.br/vivencia/index até o dia 15 de novembro de 2020. O número está previsto para o primeiro semestre de 2021. A revista Vivência  publica textos em português, francês, espanhol e inglês.

Para mais informações, enviar mensagem para o e-mail: vivenciareant@yahoo.com.br indicando como assunto da mensagem o tema do dossiê: "Patrimônios alimentares- processos, territorialidades e novos mercados". É indispensável que as/os autores que observem as normas da Vivência [em: https://periodicos.ufrn.br/vivencia/about/submissions] antes de submeterem as suas propostas.

Call for papers

Food heritage -  processes, territorialities and new markets

Since 2003, with the creation of the UNESCO Convention for the Safeguarding of Intangible Cultural Heritage, food and culinary systems, knowledge, production processes and techniques associated with food are the object of actions and policies for preservation. If there are relatively few regional food preparations and cuisines classified by the competent bodies at an international level, there are many dishes considered heritage by their holders, particularly among traditional communities, in rural areas where festive or regional foods become cultural emblems (for example corn foods, synonymous with São João in the Northeast of Brazil, or grilled sardines in Lisbon). However, heritagization actions do not always contextualize the difficult economic and social situations that correspond to certain food consumptions, and an analysis of the social and historical contexts in which they were created and consumed is often lacking.

 

On the other hand, the urbanization of contemporary societies, the stranglehold of the agroindustry in the commercialization of food, the crises, the dangers, the health and ecological scandals, have as a response the mobilization of conscious consumers who fight for sustainable, healthy and fair food practices; concern usually associated with a nostalgic appeal for "authentic" foods produced in an agricultural territory increasingly distant from consumers and which is idealized. Concomitantly, farmers organize themselves into collectives and cooperatives to avoid intermediaries and create short commercial circuits. Thus, a market for a more "natural" diet, with the direct sale of agroecological products that are also heritage-foods was created. This results in a certain trivialization of the idea of food heritage, with the commodification of terroir products, particularly in tourist areas, causing a gourmetization of these foods and a recovery of “traditional” or “popular” food markers by local elites (cf. Poulain, 2002).

 

We want to evaluate memories, knowledge, practices, processes and discuss, in a comparative and critical way, the clashes and the consequences of the heritagization of food systems and culinary creations, in particular those of vulnerable populations and working classes. We will take this opportunity to open the debate on the improvement of local or "typical" products that often refer to a reality from the past that previous generations had to distance themselves from: in an increasingly urbanized world and where traditional production systems are threatened by powerful food industries, who gains from heritagization? What are the clashes of cultural policies and actions for the heritage of culinary preparations? Finally, we will discuss culinary processes outside official agencies and associated with survival strategies; in the end, we will question whether heritage contributes to produce or reinforce inequalities.

 

Thus, we would like to receive contributions of an anthropological character, ethnographic essays that analyze food heritage; local territorialities, socio-ecological interactions and food systems; dynamics of transformation of food cultures and culinary processes; new markets and sales circuits for heritage foods; food as a marker of social and cultural differences, among other related themes.

Authors must submit their texts, following the journal's rules, through the portal https://periodicos.ufrn.br/vivencia/index until November 15, 2020. The number is scheduled for the first semester 2021. Vivência magazine publishes texts in Portuguese, French, Spanish and English.

For more information, send a message to the e-mail: vivenciareant@yahoo.com.br indicating as the subject of the message the theme of the dossier: "Food heritage - processes, territorialities and new markets". It is essential that authors observe the norms of Vivência [at: https://periodicos.ufrn.br/vivencia/about/submissions] before submitting their proposals.