A organização social como verdadeiro objeto da crítica no Segundo Discurso

Palavras-chave: Amor-Próprio, Consentimento, Desigualdades Sociais, Rousseau

Resumo

A ideia de que as desigualdades naturais não implicam em desigualdades políticas e morais (i.e., desigualdades sociais) deve ser vista como o ponto de partida do diagnóstico apresentado por Rousseau no Segundo Discurso. As desigualdades sociais tornam-se parte da vida humana apenas após a passagem do Estado de Natureza para o Estado Civil. O Estado Civil seria um Estado artificial e de desordem, sobre o qual as pessoas desenvolvem a faculdade do aperfeiçoamento (ou perfectibilidade) e, consequentemente, o sentimento (artificial) do amor-próprio. Com o desenvolvimento do amor-próprio, as pessoas começam a se comparar umas com as outras e desejam ser mais estimadas que as demais por seus semelhantes. Desse modo, o amor-próprio seria o grande responsável pelo desenvolvimento das desigualdades sociais entre as pessoas. Esse trabalho, porém, deseja mostrar que o amor-próprio, enquanto um sentimento artificial, é, em si mesmo, neutro e dependente das condições sociais que está inserido. Dessa forma, podem haver dois tipos de amor-próprio – o inflamado e o igualitarista - que só poderá ser determinado pelo modo como as instituições sociais estarão organizadas e, portanto, as desigualdades não podem ser vistas como uma implicação direta do amor-próprio, pois dependeriam dos arranjos sociais. A partir dessa leitura, há uma teoria normativa das desigualdades sociais, que é independente das ações humanas, no pensamento de Rousseau, sobre a qual a ideia de que as pessoas são naturalmente boas permanece assegurada e se pode defender a ideia da continuidade entre as obras do filósofo genebrino, bem como a possibilidade da criação de um Estado Civil justo (frente ao diagnóstico do Segundo Discurso).

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Biografia do Autor

Julio Tomé, Doutorando Filosofia UFSC

Doutorando em Filosofia no Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina (PPGFIL/UFSC), com bolsa CAPES - DS. Mestre em Filosofia no PPGFIL/UFSC (2018). Graduado em Filosofia (Bacharel [2016] e licenciatura [2018]) também pela UFSC. Durante sua graduação, foi bolsista PIBIC/CNPq (2013-2016), realizando pesquisas nas áreas de filosofia política e filosofia do direito. Sua pesquisa de mestreado foi acerca da desobediência civil no pensamento de John Rawls. Sua pesquisa atual (a nível de doutorado) investiga a relação entre desigualdades socioeconômicas e democracia a partir do pensamento rawlsiano. Tem experiência como docente de filosofia para turmas do ensino médio e fundamental II e é editor de Seção (área de ética e filosofia política) da Revista PERI (Qualis B2).

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Publicado
26-01-2021
Como Citar
TOMÉ, J. A organização social como verdadeiro objeto da crítica no Segundo Discurso. Princípios: Revista de Filosofia (UFRN), v. 28, n. 55, p. 62-90, 26 jan. 2021.