Chamada Para o Dossiê: "Políticas de Memórias e Travestilidades: Arquivos, Narrativas e Resistências"
Este dossiê tem por objetivo reunir e problematizar discussões no campo da memória e das travestilidades, a partir de saberes e práticas que tensionam os modos hegemônicos de produzir, registrar e preservar a memória. Nosso objetivo é acolher produções etnográficas, ensaios visuais, entrevistas e outras abordagens que inspirem novas formas de pensar, narrar e construir a memória, deslocando seus sentidos e afirmando outras possibilidades de existência, registro e permanência. Trata-se, portanto, de afirmar a memória não apenas como campo de registro, mas como território de luta, imaginação política e produção de mundos possíveis.
A memória não é um dado estável, tampouco um território neutro. Ela é produzida, disputada e regulada por regimes de poder que definem quais vidas são dignas de registro, preservação e reconhecimento (Gonzalez, 1984; Huyssen, 2014). Para Andreas Huyssen (2014), a política de memória refere-se às disputas sociais e culturais em torno das quais os passados são lembrados, narrados e preservados, bem como às formas pelas quais instituições e grupos podem definir o que deve ser recordado ou esquecido. Historicamente, travestis e pessoas trans foram incorporadas de forma desigual às políticas de memória, tendo suas existências frequentemente associadas à marginalidade ou à violência documental. Esse processo é atravessado por marcadores interseccionais como raça, classe, gênero e território. Dialogamos, nesse sentido, com reflexões do feminismo negro e do transfeminismo que evidenciam como racismo, travestifobia, sexismo e desigualdades estruturais se articulam na produção social das memórias e na consolidação de hierarquias sociais (De Jesus, 2013; Da Silva Domingues, Vieira, Leite, 2025).
Nesses contextos, muitas dessas vidas aparecem sobretudo em fontes atravessadas pela criminalização e pelo estigma, como diários policiais, inquéritos e outros registros institucionais que produziram narrativas de vigilância e controle sobre seus corpos e existências (Souza, 2024). Apesar desse histórico de apagamentos, estratégias de preservação da memória de travestis amparadas pelo contra-arquivo têm avançado de forma robusta no contexto brasileiro (Cavalcante et al., 2022; Da Silva, 2018; De Jesus; Radl-Philipp, 2022; Grunvald, 2021; Lima et al., 2020; Nedel, 2020; Parreira, 2025; Silva et al., 2023; Simakawa, 2023; Brasileiro, 2022), e as “barricadas” (Mombaça, 2021) muitas vezes foram nossos laboratórios mais sofisticados. Nos últimos anos, esse movimento também se expressa na emergência de iniciativas museais, acadêmicas, artísticas e grupos de pesquisa voltados à construção de arquivos, acervos e práticas de memória travesti e trans no Brasil, como iniciativas desenvolvidas no Museu da Imagem e do Som (MIS/CE), por meio do programa Trair o Cistema, no Museu Transgênero de História e Arte (MUTHA) e no Centro de Pesquisa Transfeminista.
O dossiê acolhe contribuições sobre arquivos e contra-arquivos, políticas de memória e patrimônio, documentação institucional, práticas artísticas como formas de memória, curadorias dissidentes, memória digital, iniciativas comunitárias e epistemologias travestis. Interessa, ainda, compreender como essas disputas se expressam em diferentes espaços museus, arquivos, movimentos e territórios, bem como trabalhos que mobilizem histórias de vida, trajetórias e experiências situadas em contextos interioranos, rurais e periféricos. Para além das instituições, mas também a partir das disputas que nelas se travam, interessa-nos pensar como as travestilidades produzem arquivos insurgentes, abalam imagens de controle, elaboram contramemórias e instauram práticas que desafiam os enquadramentos normativos do lembrar e esquecer.
A partir dessas perspectivas, convidamos pesquisadoras/es a refletir sobre algumas questões centrais: como travestis e pessoas trans produzem, preservam e transmitem suas memórias? De que maneiras essas memórias se materializam em arquivos, narrativas, imagens, performances e práticas políticas? Como os movimentos sociais de travestis e pessoas trans têm atuado na construção de acervos, redes e iniciativas de preservação da memória? E que metodologias e abordagens têm sido mobilizadas para pesquisar e narrar essas memórias, tensionando as formas hegemônicas de produção do conhecimento?
Ao acolher diferentes abordagens teóricas e metodológicas, o dossiê busca fomentar um espaço de interlocução entre redes de pesquisa, grupos de estudo, iniciativas coletivas e investigações acadêmicas que vêm se dedicando a pensar a produção, a disputa e a preservação das memórias travestis e trans. Desse modo, pretende-se evidenciar e fortalecer esse campo de reflexão, afirmando a relevância dessas produções no âmbito mais amplo dos estudos da memória.
Organizado por: Sol Alves de Lima (doutoranda no PPGAS/UFRN), Maria Olisa de Oliveira Santos (doutoranda no PPGAS/UFRN) e Nora Dalva Arantes Lima (mestranda no PPGAn/UFMG).
As submissões devem ser feitas na seção “Dossiê” até 01/08 de agosto de 2026, na plataforma da Revista Equatorial (periodicos.ufrn.br/equatorial/index). As informações sobre as normas para submissão podem ser encontradas em: periodicos.ufrn.br/equatorial/about/submissions.
Português (Brasil)
English
Español (España)