Memórias cantadas como território
reencantamento da ancestralidade afro-indígena nas macumbas do Rio de Janeiro
Palavras-chave:
Ancestralidade afro-indígena, Caboclos, Memória, Macumba, Oralidade RitualResumo
Este artigo analisa a presença e a reconfiguração da ancestralidade indígena nos pontos cantados de caboclos nas macumbas antigas do Rio de Janeiro, tomando como corpus um conjunto de cantigas do caboclo Sete Flechas de Mata Escura. Partindo da crítica ao apagamento histórico dos povos originários e da invenção colonial da figura do caboclo, o estudo busca compreender como essas manifestações musicais operam como práticas de reencantamento do mundo e de atualização da memória ancestral. A pesquisa adota uma abordagem qualitativa de caráter interpretativo, articulando análise cosmopoética, etnopoética e hermenêutica da oralidade ritual. Os pontos foram selecionados com base em sua recorrência no repertório transmitido por Antônio Penna de Obatalá e analisados como dispositivos de memória, territorialização simbólica e produção de conhecimento. Em diálogo com a antropologia ameríndia, a crítica literária e os estudos decoloniais, mobilizam-se, como operadores analíticos, conceitos como perspectivismo, territorialização da memória e reencantamento. Os resultados indicam que os pontos cantados operam como formas de pensamento encarnado, nas quais corpo, território e ancestralidade se entrelaçam, configurando práticas de resistência cosmopoética no contexto da colonialidade. Conclui-se que essas expressões não apenas preservam saberes, mas reatualizam epistemologias afro-indígenas e projetam modos plurais de habitar o mundo.
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