Do descerramento em Ser e tempo de Heidegger:

ser-no-mundo entre a afinação e a compreensão

Autores

  • Roberto Saraiva Kahlmeyer-Mertens Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE

DOI:

https://doi.org/10.21680/1983-2109.2026v34n70ID42073

Palavras-chave:

Ser-em, Descerramento, Tonalidades afetivas, Afinação, Compreensão, Heidegger

Resumo

O artigo questiona: como fenômeno do “descerramento” (Erschlossenheit)[1] do ser-aí a seu mundo está implicado ao poder-ser deste ente na obra Ser e tempo? Inicia contextualizando a noção de ser-em e indicando que Heidegger necessita elucidar o em do ser-no-mundo para chegar a alcançar o fundamento fenomenológico que lhe permitiria compreender tal ente. Após, apresenta como o conceito fenomenológico de “descerramento” é tratado. O trabalho, assim, busca indicar como tal abertura se dá desde as “tonalidades afetivas” (Stimmungen) e implicada a um conceito contíguo a estas, a “afinação” (Befindlichkeit). O descerramento também será tratado com vistas à compreensão (Verstehen); nesse momento, desejamos evidenciar como este existencial descerra o ser-aí ao horizonte significativo que seu mundo constitui, além de indicar o quanto essa abertura compreensiva aos contextos mundanos abre o ser-aí a sua situação de ente de projeto existencial e de possibilidades. Para chegar a realizar essas reconstruções conceituais, o artigo deverá ocupar-se, em diferentes momentos, dos contextos compreendidos nos §§. 28-32 da obra Ser e tempo. O artigo depreende que entre compreensão e afinação o ser-aí é este que é livre para poder-ser possibilidades no descerramento a seu mundo.

 

[1] Por mais que usual esta expressão para traduzir essa palavra alemã, há quem ainda prefira traduzi-la por “abertura”. Justificamo-nos quanto à opção pela primeira, por ela melhor registrar a ideia desse ser-aberto em seu movimento de “des-fechamento”, possuindo em seu radical o verbo alemão schließen (fechar) e guardando parentesco etimológico com o substantivo Schlüssel (chave). Registre-se, portanto, que Erschlossenheit é o termo que Heidegger reserva tanto para referir-se ao descerramento promovido pelas tonalidades afetivas quanto pela compreensão. No mais, quem desejar se dar a pena de fazer uma leitura de mapeamento da obra Ser e tempo, logo notará que o termo “abertura” (Öffnung) não é utilizado por Heidegger nesse período (até há incidências de correlatos a esse, como é o caso de Eröffnung, mas ele só aparece em contexto extra filosófico no posfácio assinado por Friedrich-Wilhelm v. Herrmann, organizador do volume (GA2) no âmbito das Obras reunidas de Heidegger). Cognatos a Offen (aberto), como Öffenen (abrir), Offenbach (abertamente), offenbaren (revelar), Offensichtlich (evidentemente), offenkundig (óbvio), Offenbarkeit  (franqueado) etc., embora identificados no texto de Heidegger, são quase que na totalidade das vezes usados de maneira lata, sem que se revistam de tecnicidade filosófica e, quando isto ocorre, a exemplo de öffentlichen (público), Öffentichkeit (caráter-de-público), veröffentlicht (posto-a-público), seu contexto filosófico não é o referente à maneira com a qual se vê aberto ao horizonte de seu mundo, mas o daquela “publicidade” que, ao lado da cotidianidade mediana (durchschnittliche Alltäglichkeit) e do afastamento (Abständigkeit), responde pelo modo com o qual o ser-no-mundo já se vê decaído num modo derivado de existência.

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Biografia do Autor

Roberto Saraiva Kahlmeyer-Mertens, Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE

Doutor em filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, professor adjunto da Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE.

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Publicado

29-09-2026

Como Citar

KAHLMEYER-MERTENS, Roberto Saraiva. Do descerramento em Ser e tempo de Heidegger: : ser-no-mundo entre a afinação e a compreensão. Princípios: Revista de Filosofia (UFRN), [S. l.], v. 33, n. 71, 2026. DOI: 10.21680/1983-2109.2026v34n70ID42073. Disponível em: https://periodicos.ufrn.br/principios/article/view/42073. Acesso em: 30 set. 2026.