O "Canto do Sertão" na "Bachiana nº 4": uma perspectiva sociomusicológica

Palavras-chave: Bachianas Brasileiras, linguagem musical, sertão nordestino

Resumo

O artigo traz um estudo da peça Coral Canto do Sertão, da Bachiana Brasileira nº 4, de Heitor Villa-Lobos. Trata-se de uma análise intramusical (ritmos e melodias) e também extramusical, considerando os fatores externos, como características físicas do sertão nordestino, como essas são internalizadas e ressignificadas na música. O estudo desenvolveu-se a partir do exame da partitura a fim de explorá-la sob uma perspectiva crítica, indo além da própria música, sem, portanto, sair dela. Sob uma abordagem musicológica (KERMAN, 2010; LOPES, 2014), foram identificados trechos (tropos) e frases (tópicas) que conduziram o tema (AGAWU; RATTEN, 1980), sendo observados como se moviam na música a fim de conferir-lhe o título sugerido: Canto do Sertão. Considerando a episteme musicológica e o exame documental, levantamos a discussão sobre até que ponto a música, em sua linguagem, pode trazer ou estabelecer pontos de identificação com a realidade da região abordada, o sertão nordestino.

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Biografia do Autor

Ana Judite Oliveira Medeiros, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte – IFRN

Ana Judite de Oliveira Medeiros é doutora em Ciências Sociais com pesquisa em Música pelo Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, CCHLA, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, UFRN, com intercâmbio na Universidade de Évora, Portugal, na área de Musicologia. Mestre em Ciências Sociais com pesquisa em Música pelo CCHLA/UFRN. Especialista em Educação pelo Centro de Ciências Sociais Aplicadas, CCSA, da UFRN. Graduada em Educação Artística com Habilitação em Música no CCHLA/UFRN, Departamento de Artes (DEA). Graduada em Piano pela Escola de Música, DEA/UFRN. Docente do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte, IFRN, nas áreas de regência coral, música e história da arte.

Maria Lúcia Bastos Alves, Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN

Maria Lúcia Bastos Alves possui graduação (1983) e mestrado (1993) em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, UFRN. Doutorado em Sociologia pela Universidade de São Paulo (2004) e pós-doutorado na University of Roehampton, Reino Unido. Atualmente é professora Associada IV da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, com atuação no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais e no Programa de Pós-Graduação em Turismo. Tem experiência na área de Metodologia e Métodos de Pesquisa Social e Sociologia da Religião, com foco nos seguintes temas: religiosidade, turismo, religião, cultura e família. Atualmente coordena a Rede de Pesquisa em Turismo Religioso-NE em parceria com professores pesquisadores e colaboradores de nove estados do Nordeste brasileiro.

Eduardo Lopes, Universidade de Évora – UE

Eduardo Lopes estudou bateria jazz e percussão clássica no Conservatório Superior de Roterdã, Holanda. Licenciado em Música pela Berklee College of Music, Estados Unidos, com Summa Cum Laude. Doutorado em Teoria da Música pela Universidade de Southampton, Reino Unido, sob orientação de Nicholas Cook. Realizou trabalho de pós-doutoramento no Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa. Mantém atividade artística através de concertos nacionais e internacionais, com vários CDs editados. Autor e coordenador de publicações científicas, entre elas Perspectivando o ensino do instrumento musical no séc. XXI, Pluralidade no ensino do instrumento musical, Tópicos de pesquisa para a aprendizagem do instrumento musical e Percursos de investigação no séc. XXI para o ensino do instrumento musical. Coordenador do polo CESEM UÉ – Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical, e Professor Associado com Agregação no Departamento de Música da Universidade de Évora.

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Publicado
10-12-2020
Como Citar
OLIVEIRA MEDEIROS, A. J.; BASTOS ALVES, M. L.; TAVARES LOPES, E. J. O "Canto do Sertão" na "Bachiana nº 4": uma perspectiva sociomusicológica. ARJ – Art Research Journal / Revista de Pesquisa em Artes, v. 7, n. 2, 10 dez. 2020.