Nota de pesar pelo falecimento de Thomas Givón
A Revista do GELNE manifesta pesar pelo falecimento do linguista Thomas Givón, professor emérito da Universidade de Oregon e expoente do Funcionalismo linguístico em solo americano. Sua atuação acadêmica deixa enorme legado à linguística contemporânea, em particular no campo dos estudos tipológicos e funcionalistas. Seu trabalho foi crucial para a visão simbiótica entre discurso e gramática, tão cara às investigações calcadas no uso da língua.
Reproduzimos, a seguir, homenagem prestada pelo professor Sebastião Votre, discípulo de Givón:
Homenagem a Thomas Givón, em 27 de setembro de 2026
Junto-me à falange de colegas que convivem com as ideias de Thomas Givón sobre discurso e gramática. Que traduziram suas obras, como Angélica Furtado. Que o homenagearam com obras coletivas sobre suas contribuições, como Maria Célia, ou criaram o Discurso & Gramática, como Mário, Maura e Mariângela.
A linguística funcional brasileira baseada no uso deve a Givón as mais produtivas concepções analíticas, como a iconicidade, a marcação, a gramaticalização, a trajetória do discurso para a sintaxe, a continuidade do tópico e o tom afinado no trato com a linguagem cotidiana, e o foco na sintaxe, oriunda do discurso, a atenção aos processos de mudança e variação, de figura e fundo, da iconicidade e da cadeia tópica no discurso.
A extensa contribuição de Givón, israelita, nascido em 22 de julho de 1936, em Afula, rica região agrícola do norte de Israel, guarda estreita relação com sua formação em agricultura, horticultura, bioquímica vegetal. biologia e evolução. Após o contato com Bolinger e Greenberg, na Califórnia, abandonou os estudos sobre agricultura e transferiu para a linguística os conceitos de bioquímica, mudança e evolução, desenvolvendo o que ele mesmo chamou de biolinguística, com forte presença de fatores biológicos, a que acresceu restrições cognitivas, como o efeito da memória de curto termo no processamento da linguagem pelos ouvintes. Fundou a sintaxe funcional-tipológica, a que se dedica até hoje, aos 90 anos, com estudos sobre a tipologia do ute do sul.
Atribuímos a Givón e Bolinger a ideia de que a língua é uma estrutura maleável, sujeita a mudanças, para dar conta de necessidades comunicativas e de restrições cognitivas, como memória, atenção e interesse na continuidade do tópico de comunicação.
Esta homenagem a Givón se dá neste momento em que o movimento geopolítico do norte global se apresenta sob a roupagem do construcionalismo, de feição formalista, em que mecanismos de herança e de renovação da ideia de arbitrariedade do signo tendem a conferir ao modelo algorítmico o papel central nos mecanismos de mudança, a partir de corpora caracterizados pelo extrativismo linguístico, e não do discurso espontâneo.
Não existem teorias superadas. E sim pessoas encantadas por outras abordagens, que conferem prestígio e publicidade. Espero que nos próximos anos possamos assistir ao renascer do interesse nas ideias revolucionárias de Givón, quando o sul global vencer as pressões do norte americano e europeu.
Sebastião Votre, discípulo de Givón
Nossa solidariedade a familiares, amigos, alunos e ex-alunos, estudantes e toda a comunidade acadêmica por essa enorme perda.
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