Injúrias e a gramática da apropriação
DOI:
https://doi.org/10.21680/1517-7874.2026v28n1ID42164Resumen
O presente artigo discute os mecanismos linguísticos que possibilitam a apropriação de injúrias de grupo por membros das comunidades historicamente alvos dessas formas de violência verbal. Partindo do entendimento de Anderson (2018) sobre a apropriação linguística, entendo que ela não decorre apenas de uma mudança de significado, mas de restrições gramaticais e pragmáticas que regulam a interpretação de expressões injuriosas em diferentes contextos de uso. Em particular, assumo que a legitimidade da apropriação está associada à participação dos falantes em grupos nos quais determinadas formas linguísticas circulam como recursos de identificação, solidariedade e resistência. A análise concentra-se em exemplos do português brasileiro envolvendo insultos dirigidos à população LGBTQIAPN+, examinando como fatores relacionados à identidade dos interlocutores, ao endereçamento e ao contexto interacional afetam a possibilidade de uso apropriado. Os resultados mostram que a apropriação constitui um fenômeno simultaneamente linguístico e social, dependente de relações de pertencimento e reconhecimento coletivo. Com base nesses resultados, propomos o conceito de gramática da apropriação, entendido como o conjunto de condições sintáticas, semânticas, pragmáticas e sociais que regulam a circulação e a ressignificação de injúrias de grupo.
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