Violência, silêncio e resistência
uma análise da música "Camila, Camila" à luz das teorias de poder e gênero
DOI:
https://doi.org/10.21680/1982-310X.2025v18n2ID43859Palavras-chave:
violência de gênero, violência doméstica, poder, silenciamento, resistênciaResumo
O artigo analisa a canção “Camila, Camila”, da banda Nenhum de Nós, como uma narrativa de violência de gênero, articulando-a com referenciais teóricos das teorias do poder, da dominação simbólica e da construção social da vítima. Parte-se da premissa de que produções culturais podem operar como dispositivos críticos de leitura da realidade social, permitindo evidenciar dimensões frequentemente invisibilizadas da violência doméstica. A partir de uma abordagem interdisciplinar, o estudo mobiliza autores como Foucault, Butler, Bourdieu e Saffioti para compreender a violência não como evento isolado, mas como expressão de uma estrutura de poder que atravessa relações sociais e subjetividades. A análise da letra da música evidencia elementos centrais das dinâmicas de violência doméstica, tais como o medo, o silenciamento, a vigilância constante e a internalização da dominação. Destaca-se que a violência se prolonga para além do ato físico, operando na constituição subjetiva da vítima e contribuindo para sua deslegitimação social. O trabalho também examina os mecanismos de construção da vítima e os processos de culpabilização, evidenciando como normas de gênero e discursos sociais reforçam a manutenção da violência. Ademais, identifica-se, ainda que de forma sutil, a presença de possibilidades de resistência e ruptura, compreendidas como processos complexos e condicionados por fatores estruturais. Conclui-se que a canção analisada constitui importante ferramenta hermenêutica para a compreensão da violência de gênero, ao revelar a articulação entre poder, cultura e subjetividade, bem como ao tensionar os limites entre silêncio e resistência.
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